Frei Leão protege uma pequena folha de pergaminho junto a uma lamparina em um convento medieval de pedra
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Livro IV · Os que ficaram · Capítulo 02

Frei Leão, o guardião das lembranças

A história do companheiro que recebeu de Francisco uma pequena folha escrita à mão e ajudou a memória dos primeiros irmãos a atravessar os séculos.

Imagine uma cela de pedra depois que o sino da noite já tocou. O vento passa pelas frestas. A lamparina faz uma sombra pequena tremer na parede. Sobre uma mesa há uma folha de pergaminho menor que um livro, marcada por dobras, pelo tempo e pelas mãos que a carregaram.

Um frade a segura com cuidado. Seu nome é Leão.

Ele não está diante de uma cópia feita por um escriba. Reconhece naquela folha os traços difíceis da mão de seu amigo Francisco. De um lado estão os Louvores ao Deus Altíssimo. Do outro, uma bênção que termina chamando Leão pelo nome.

O pergaminho existe até hoje. É uma das raras ocasiões em que podemos estar diante não apenas de uma história sobre Francisco, mas de algo que ele realmente tocou e escreveu. A folha é pequena. O que ela guarda é imenso.

O homem quase escondido atrás do santo

Não sabemos quando Leão nasceu. Também não sabemos exatamente quando entrou para a fraternidade. As fontes mais seguras o mostram entre os companheiros próximos de Francisco nos últimos anos de sua vida. Ele serviu como companheiro, confidente e, segundo a tradição antiga, secretário e confessor.

“Secretário”, naquele tempo, significava ajudar a escrever, conservar recados, acompanhar viagens e recordar decisões. A saúde de Francisco se tornou frágil, e os irmãos próximos tinham de ouvir com atenção.

Leão viveu perto da voz antes de viver perto dos papéis.

Na Idade Média, a memória não ficava apenas nas bibliotecas. Permanecia também em pessoas. Um companheiro lembrava como Francisco pronunciava uma frase ou que conselho dera numa estrada. Quando esses irmãos envelheceram, suas lembranças se tornaram preciosas — e difíceis de verificar. Recordar é conservar, mas toda lembrança humana muda um pouco com o tempo.

Por isso, ao falar de Leão, precisamos manter duas coisas juntas: ternura e cuidado histórico.

A pequena folha de La Verna

Em 1224, Francisco passou um período de oração no monte La Verna. Foi ali, perto do fim de sua vida, que a tradição situa o recebimento dos estigmas. Leão estava entre os companheiros ligados àquele retiro.

A chamada Chartula de Assis é um pequeno fragmento de pergaminho, de cerca de dez por treze centímetros. Em um lado, Francisco escreveu os Louvores ao Deus Altíssimo: uma oração que repete “Tu és” e contempla Deus como força, beleza, humildade, proteção, esperança e paz. No outro lado, escreveu uma bênção inspirada no livro bíblico dos Números:

O Senhor te abençoe e te guarde.
Mostre a ti a sua face e tenha misericórdia de ti.
Volte para ti o seu rosto e te dê a paz.
O Senhor te abençoe, Frei Leão.

Francisco desenhou também o sinal do Tau, forma de cruz que ele amava. O nome de Leão aparece junto desse sinal.

O mais extraordinário é que os especialistas reconhecem o texto principal como autógrafo de Francisco: foi escrito pela própria mão dele. Leão acrescentou pequenas notas para explicar e identificar o presente. Numa delas, afirma que Francisco escreveu a bênção para ele; em outra, identifica o Tau feito pela mão de Francisco. Assim, a folha conserva duas presenças: a mão que abençoou e a mão que se recusou a deixar a bênção sem testemunho.

O pergaminho está hoje preservado no Sacro Convento de Assis. Foi dobrado e provavelmente carregado durante muito tempo. Não chegou liso como uma peça de oficina. Chegou ferido pelo cuidado.

O que sabemos — e o que a narrativa acrescentou

Tomás de Celano escreveu, por volta de 1246–1247, que um companheiro de Francisco sofria uma grave tentação interior e desejava receber algumas palavras de Deus escritas pela mão do santo. Segundo Celano, o companheiro não falou sobre esse desejo. Francisco, porém, pediu papel e tinta, escreveu os louvores e acrescentou a bênção. A angústia então se afastou.

Celano não chama esse companheiro de Leão naquele trecho. A própria folha, com as notas de Leão e seu nome na bênção, permite fazer a ligação. É uma união rara entre narrativa antiga e objeto sobrevivente.

É bom perceber as camadas. A existência do pergaminho, a escrita de Francisco e as anotações de Leão são evidências materiais. O sofrimento interior e o desejo não pronunciado vêm de Celano, escrito pouco mais de vinte anos depois. É um testemunho próximo, mas já uma narrativa religiosa.

Séculos depois, outras versões tornaram a cena mais detalhada e maravilhosa. É possível recebê-las como tradição devocional, sem fingir que cada pormenor possui o mesmo peso da folha preservada.

Talvez Leão tenha guardado o pergaminho porque a tentação passou. Talvez o tenha guardado porque era o traço de uma amizade. Talvez as duas coisas sejam verdadeiras. O objeto não nos permite ouvir tudo o que aconteceu na cela de La Verna. Ele apenas nos deixa chegar muito perto.

Quando Francisco já não estava

Francisco morreu na noite de 3 de outubro de 1226. Para quem o havia acompanhado, não desapareceu apenas um fundador. Faltou uma voz conhecida, um modo de olhar e uma presença capaz de corrigir e consolar.

Depois da morte de Francisco, a Ordem cresceu depressa. Surgiram casas, estudos, igrejas e tensões. Como viver a pobreza quando milhares de frades precisavam de abrigo? Irmãos sinceros podiam responder de maneiras diferentes.

Leão ficou ligado à memória exigente da primeira pobreza. Textos posteriores o apresentam em conflito com decisões de Frei Elias e com a construção da grande basílica de Assis. Alguns relatos dizem que ele derrubou uma caixa destinada a ofertas para a obra e sofreu castigo. Esses episódios, porém, chegaram por tradições mais tardias e não têm a mesma firmeza documental da Chartula. Eles revelam como gerações posteriores enxergaram Leão: o guardião que preferia uma pedra pobre a um monumento esplêndido.

Não precisamos transformar Leão em herói de um partido. Ele recordava que uma obra construída em honra de Francisco poderia esquecer aquilo que Francisco amara. A pergunta permanece: é possível falar grandiosamente da pobreza e perder a simplicidade?

Três companheiros enviam uma memória

Em 1244, o ministro-geral Crescêncio de Jesi pediu aos frades que enviassem informações sobre a vida de Francisco. Dois anos depois, em Greccio, Leão, Rufino e Ângelo assinaram uma carta. Disseram que haviam reunido lembranças e também testemunhos recebidos de outros irmãos próximos, como Bernardo e Egídio.

Essa carta, datada de 11 de agosto de 1246, é uma peça importante. Ela prova que Leão participou de um esforço consciente para guardar memórias. Porém, o texto que hoje chamamos Legenda dos Três Companheiros tem uma história complicada. Os estudiosos discutem quanto da obra atual corresponde ao material originalmente enviado pelos três frades. A carta é antiga; a forma final do livro pode ter passado por seleção e reorganização.

Algo parecido acontece com o Espelho de Perfeição. Durante algum tempo, houve quem defendesse que Leão teria escrito toda a obra. Hoje, essa afirmação é tratada com muita cautela. O livro parece ser uma compilação posterior e pode conservar materiais vindos de Leão e de outros companheiros, mas não deve ser apresentado simplesmente como “o livro escrito por Frei Leão”.

Essa incerteza mostra como a memória medieval era construída. Uma lembrança podia ser anotada numa folha, contada no refeitório, reunida por outro frade e finalmente entrar num manuscrito anônimo.

As antigas notícias falam de rolos e folhas atribuídos a Leão e depositados junto às irmãs de Santa Clara. Esses materiais não sobreviveram como um conjunto identificável. Talvez fragmentos deles tenham passado para compilações posteriores. Não sabemos. A porta permanece entreaberta, mas não devemos dizer que enxergamos o quarto inteiro.

Guardar não é congelar

Leão viveu por décadas depois de Francisco e morreu, segundo a tradição, em 1271. Viu a fraternidade espalhar-se e pessoas que nunca haviam conhecido Francisco discutirem o que ele desejara. Talvez tenha sentido a dor de ouvir alguém contar de outro modo aquilo que presenciara.

Mas ninguém guarda sozinho uma vida inteira. Leão possuía um lugar privilegiado, não um olhar perfeito. Clara, Rufino, Ângelo, Egídio e Bernardo também conheceram Francisco. Cada testemunho ilumina uma parte e deixa outras na sombra.

O gesto mais bonito de Leão talvez tenha sido conservar sinais pequenos: uma folha dobrada, uma nota de identificação, episódios oferecidos para exame. Ele deixou marcas pelas quais ainda perguntamos: de onde veio este relato? Quem estava lá? Quanto tempo depois foi escrito?

Essas perguntas não destroem o encanto. Elas limpam o vidro da lamparina.

O guardião também precisava ser guardado

Quando olhamos para a Chartula, é fácil pensar apenas em Leão como protetor de uma relíquia. Mas a folha nasceu porque ele próprio precisava de proteção. O guardião das lembranças era um homem inquieto. A bênção que atravessou os séculos foi primeiro uma palavra dirigida a alguém que sofria.

Isso muda tudo. Leão não guardou Francisco como quem fecha uma joia numa caixa. Guardou uma relação em que podia ser frágil. A voz do amigo não dizia: “Seja forte sozinho”. Dizia: “O Senhor te abençoe e te guarde”.

O pergaminho continua falando porque cabe nas mãos, tem dobras e áreas gastas. Parece com a memória humana: preciosa, incompleta e vulnerável.

Na pedra fria dos conventos, muitos livros desapareceram. Rolos se perderam. Nomes foram esquecidos. Mas aquela pequena folha ficou.

Leão a guardou. Depois, outros guardaram aquilo que Leão havia guardado. E agora, quando a vemos, não encontramos apenas a letra de Francisco. Encontramos também a fidelidade silenciosa de um irmão que entendeu que certas coisas frágeis só atravessam o tempo quando alguém decide não soltá-las.

Pedras de prova

Fontes desta história

  1. Fontes Franciscanas — Província Franciscana da Imaculada Conceição do BrasilReúne em português os escritos de Francisco, o bilhete a Frei Leão, as biografias de Tomás de Celano, a Legenda dos Três Companheiros, a Legenda Perusina e o Espelho de Perfeição.
  2. “O autógrafo de frei Francisco e frei Leão” — Sapienza Università di RomaEstudo codicológico e paleográfico da Chartula di Assisi, com atenção à relação entre texto, imagem e bênção.
  3. The Medieval Review: The Writings of Francis of AssisiResenha acadêmica que descreve os dois textos autógrafos da Chartula e apresenta discussões modernas sobre sua leitura histórica.
  4. Leone d’Assisi — Dizionario Biografico degli Italiani, TreccaniVerbete de referência com documentação e bibliografia crítica sobre Leão, seus escritos atribuídos e as primeiras fontes franciscanas.
  5. Carta e Legenda dos Três Companheiros — Custódia São Francisco de AssisTexto da carta assinada em 1246 por Leão, Rufino e Ângelo e da tradição biográfica transmitida sob o nome dos três companheiros.

Como lemos as fontes: a Chartula, a escrita de Francisco e as notas de Leão são documentos materiais do século XIII. O relato de Celano é antigo e próximo, mas já possui forma hagiográfica. Episódios preservados apenas em compilações posteriores são apresentados aqui como tradição, não como fato igualmente comprovado.