Dois frades encontram respeitosamente um mensageiro mongol diante de um vasto acampamento de tendas na estepe
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Livro IV · Estradas de pedra · Capítulo 10

Até as terras dos mongóis

Dois frades atravessaram as ruínas da Europa oriental e a imensidão das estepes levando cartas do papa — e voltaram com um dos primeiros relatos europeus diretos sobre o mundo mongol.

Um cavalo pequeno diante de um caminho enorme

O vento corre sem encontrar parede. Faz a relva seca inclinar-se e bate no hábito de lã dos viajantes. À direita, dois frades esperam diante de um homem montado num cavalo baixo e resistente. Mais longe, tendas de feltro formam um acampamento tão grande que parece uma cidade capaz de partir.

Um frade segura uma carta. O outro escuta. Nenhum deles está ali por acaso.

Esta abertura é uma reconstrução artística. O relato da viagem não descreve um único encontro com estas posições e estes gestos. Mas seus elementos pertencem ao mundo que João de Pian del Carpine conheceu: a estepe, os cavalos trocados ao longo da rota, os mensageiros, as tendas e a necessidade de falar por meio de várias línguas.

João não foi ao Oriente para conhecer paisagens. O papa o enviou porque a Europa estava com medo.

Depois que os exércitos desapareceram

Em 1241, forças mongóis destruíram exércitos na Polônia e na Hungria. Cidades foram queimadas. Famílias morreram ou foram levadas. Então, quase tão depressa quanto haviam chegado, os grandes contingentes recuaram para o leste.

Os europeus não sabiam se voltariam.

Em 1245, durante o Concílio de Lyon, o papa Inocêncio IV decidiu enviar mensageiros. Um deles era João de Pian del Carpine, frade menor italiano e antigo companheiro de Francisco. João já era um homem idoso para uma viagem tão dura — provavelmente estava perto dos sessenta anos — e conhecia a organização da fraternidade em diferentes países.

Ele partiu de Lyon em 16 de abril de 1245. A carta Cum non solum pedia que cessassem os ataques, perguntava o que pretendiam fazer e falava de paz. Outra apresentava a fé cristã.

João era um enviado diplomático do papa, encarregado de entregar mensagens, obter uma resposta e observar um poder que a Europa mal compreendia.

Benedito entra na estrada

A missão avançou pela Boêmia e pela Polônia. Em Breslávia — hoje Wrocław — juntou-se ao grupo Benedito da Polônia, um frade capaz de ajudar com línguas eslavas. Ele não foi um figurante silencioso. Tornou-se companheiro, intérprete e testemunha da viagem.

Outro irmão, Estêvão da Boêmia, adoeceu e precisou ficar em Kiev. João também esteve tão doente que acreditou estar perto da morte. Mesmo assim, escreveu que foi carregado num carro, pelo frio e pela neve, para não interromper a missão.

Essa frase vem do viajante. A realidade já era dura: estradas inseguras, territórios devastados e a obrigação de continuar quando o corpo pedia repouso.

Em Kiev, moradores deram um conselho importante. Os cavalos vindos do oeste morreriam, pois não sabiam procurar capim sob a neve como os animais da estepe. Os frades trocaram de montaria e passaram a depender das autoridades e estações mongóis para seguir.

Também aprenderam que um emissário sem presentes podia ser desprezado. Com doações recebidas pelo caminho, compraram peles para oferecer. Naquele mundo diplomático, presentes comunicavam respeito e posição.

Cartas atravessam línguas

Em fevereiro de 1246, João e Benedito deixaram Kiev e alcançaram os primeiros acampamentos mongóis. Homens armados apareceram ao pôr do sol e perguntaram quem eram. Os viajantes responderam: enviados do papa.

Cada encontro exigia repetir a missão. Cada chefe podia encaminhá-los ao seguinte ou fazê-los esperar. Diante de Batu, poderoso governante das terras ocidentais do império, as cartas precisaram ser traduzidas.

João registra uma cadeia de idiomas: latim, ruteno, uma língua que ele chama de “sarracena” — provavelmente persa — e mongol. Uma frase podia atravessar várias bocas antes de chegar ao destinatário.

Quanto de uma mensagem permanece igual depois de tantas traduções? Os frades conferiam o que podiam, mas não controlavam todas as palavras.

Antes da audiência com Batu, pediram que passassem entre dois fogos. Os anfitriões explicaram que era uma purificação contra veneno ou intenção má. Os frades resistiram primeiro e depois aceitaram, desde que o gesto não significasse abandonar a fé.

Foi uma negociação delicada entre costumes que podiam ser mal compreendidos.

Neve em junho

Batu determinou que os enviados fossem até o grande cã. A partir daí, o caminho tornou-se ainda mais comprido. Eles seguiram para o leste através das estepes, acompanhados por guias mongóis e trocando de cavalos para viajar com rapidez.

João descreve rios largos, lagos, planícies e regiões montanhosas. Em 29 de junho, encontrou neve e frio intenso na terra dos naimanos. Era verão no calendário, mas não no corpo dos viajantes.

Levantavam-se ao amanhecer e cavalgavam até a noite. Às vezes chegavam tarde demais para comer. Em certas etapas, recebiam de manhã a porção que deveria ter sido a ceia. Durante a Quaresma, disseram ter vivido principalmente de painço com sal e água; derretiam neve numa panela para beber.

Mensageiros, pastores, comerciantes e soldados percorriam aquelas terras. A rede mongol de cavalos, guias e autoridades tornou possível a travessia. Sem ela, os frades não teriam chegado.

A estepe não era vazia. João atravessou regiões de muitos povos, algumas conquistadas recentemente. Viu ruínas, acampamentos organizados e uma administração capaz de mover pessoas por milhares de quilômetros.

A cidade que se movia

Em 22 de julho de 1246, os viajantes chegaram ao grande acampamento onde seria escolhido o novo soberano. O local exato continua discutido entre estudiosos; não é seguro dizer simplesmente que João entrou na cidade de Karakorum. Ele chegou à corte imperial reunida na região da Mongólia.

Tendas de feltro, carroças, cavalos e enviados de muitos lugares cobriam a paisagem. A eleição de Güyük, neto de Gêngis Khan, reuniu chefes do império num quriltai, uma assembleia política.

O frade observou coisas que admirou: a disciplina, a resistência e certos costumes de solidariedade dentro da comunidade. Também escreveu com medo sobre estratégias militares e domínio sobre povos vencidos.

Seu olhar era atento, mas não neutro. Ele chama os mongóis pelo nome europeu “tártaros”, julga religiões com critérios cristãos e às vezes repete informações que ouviu sem verificar. Em algumas páginas surgem povos fantásticos herdados de velhas histórias europeias. Quando diz “eu vi”, sua voz possui um peso. Quando diz “contaram-nos”, precisamos conservar a distância.

Diante de Güyük

Os frades esperaram semanas. Não puderam simplesmente entregar a carta e partir. Protocolos, traduções e a eleição do soberano determinavam o tempo.

Quando entraram na tenda de Güyük, foram revistados e advertidos a não tocar o limiar. Viram representantes trazendo tecidos, peles, cavalos e outros presentes. João e Benedito já haviam gastado quase tudo o que possuíam.

A resposta de Güyük rejeitou a advertência papal e exigiu que o papa e os governantes do Ocidente fossem prestar submissão. A carta, em persa e com selo em caracteres mongóis, ainda existe nos arquivos do Vaticano.

A missão não produziu a paz que Inocêncio IV desejava. Tampouco converteu o grande cã. Seu resultado foi mais sóbrio: abriu uma comunicação direta e trouxe informações que antes chegavam como rumor.

Em 13 de novembro de 1246, os enviados começaram o retorno. Enfrentaram de novo o inverno e a distância. João regressou a Lyon em novembro de 1247, mais de dois anos depois da partida.

O livro que voltou com eles

João escreveu a História dos Mongóis que nós chamamos tártaros. Não é somente um diário. Ele organiza o que aprendeu sobre território, costumes, governo, religião, guerra e viagem. Também alerta os cristãos sobre a possibilidade de outra invasão.

Benedito deixou um testemunho relacionado, conhecido por uma versão recolhida de sua fala. Assim, não devemos contar a missão como se um italiano tivesse compreendido sozinho todas as línguas e caminhos. A obra nasceu de uma viagem partilhada e de muitos intermediários cujos nomes quase desapareceram.

Entre 1253 e 1255, Guilherme de Rubruck alcançou a corte de Möngke. Ligado ao rei Luís IX da França, desejava visitar cristãos e falar da fé. Sua missão não foi a de João; mesmo assim, a corte o tratou como embaixador.

Os dois textos permitem comparar observações. Também revelam seus autores: frades latinos do século XIII, curiosos e corajosos, mas carregando medos, crenças e limites de seu próprio mundo.

O que permaneceu da estepe

João e Benedito não “descobriram” os mongóis. Povos já viviam e governavam naquelas terras. Os frades voltaram com um relato europeu direto.

Há uma lição franciscana nessa história, mas ela não precisa de brilho inventado. Os frades chegaram frágeis, dependeram de estrangeiros e descobriram que observar é diferente de compreender por completo.

Quando encontramos um povo desconhecido, podemos começar descrevendo tudo com as nossas palavras. Depois, se formos humildes, percebemos que também precisamos aprender as palavras dele.

Na imagem, a carta permanece fechada por um instante. O mensageiro segura as rédeas. Os viajantes escutam antes de seguir.

A distância mais difícil talvez não fosse entre Lyon e a Mongólia. Era aquela que separava duas ideias de mundo — e que nenhuma estrada, sozinha, poderia apagar.

Vozes da viagem

Fontes deste capítulo

  1. João de Pian del Carpine — A viagem à corte de Güyük KhanRelato direto da missão de 1245–1247. Tradução inglesa de W. W. Rockhill, disponibilizada e anotada pelo projeto Silk Road Seattle, da Universidade de Washington.
  2. João de Pian del Carpine — History of the MongolsTradução integral do tratado. Permite distinguir a narrativa da viagem dos capítulos de descrição, estratégia e informações ouvidas.
  3. Inocêncio IV — Cum non solum, 1245Carta diplomática contemporânea. Pede o fim das invasões, pergunta pelas intenções mongóis e identifica os frades como portadores da mensagem.
  4. Dizionario Biografico degli Italiani — Giovanni da Pian del CarpineEstudo histórico moderno. Reconstitui o itinerário, as traduções, a audiência, a resposta de Güyük e a redação da Historia Mongalorum.
  5. Boleslaw Szcześniak — a missão de João e BeneditoArtigo acadêmico. Recupera o papel de Benedito da Polônia e mostra que a viagem também envolveu negociações na Polônia e na Rutênia.
  6. Guilherme de Rubruck — Viagem às regiões orientaisOutro relato franciscano direto, de 1253–1255. Serve para comparação sem confundir a missão de Guilherme com a embaixada papal de João.

Como ler este capítulo: as datas, a rota principal, a fome, as traduções, a corte e a resposta diplomática vêm de relatos e documentos do século XIII. A cena de abertura reúne elementos comprovados, mas é reconstruída. João foi testemunha direta de muita coisa, porém escreveu como enviado cristão preocupado com uma nova invasão; ele também registrou boatos e julgamentos de sua época. Por isso, suas observações foram apresentadas como valiosas, não como uma visão completa ou neutra dos povos mongóis.