Primeiros frades reunidos à noite junto à Porciúncula, ouvindo a leitura de um pergaminho à luz de uma lamparina
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Livro V · Os Escritos · Manuscrito 02

A Regra não Bulada

Uma regra antes do selo: vinte e quatro capítulos nascidos das estradas, das reuniões e dos problemas reais da primeira fraternidade.

Antes do selo, houve a estrada.

Um irmão voltava de uma cidade onde fora mal recebido. Outro precisava saber como trabalhar sem receber dinheiro. Um terceiro desejava atravessar o mar e viver entre muçulmanos. Havia doentes, ministros cansados, novos companheiros e discussões que a pequena fraternidade dos primeiros anos nunca imaginara enfrentar.

A Regra não Bulada nasceu nesse mundo em movimento. Ela não parece uma lei escrita de uma vez, numa mesa silenciosa. Seus vinte e quatro capítulos guardam camadas: palavras do Evangelho, orientações práticas, orações longas e respostas a experiências acumuladas.

O nome latino Regula non bullata significa Regra “não bulada”, isto é, não confirmada por uma bula solene com selo papal. O nome é posterior; os irmãos de 1221 não precisavam chamá-la assim, pois a Regra Bulada de 1223 ainda nem existia.

Uma pequena forma que cresceu

No Testamento, Francisco recorda que, quando o Senhor lhe deu irmãos, fez escrever de modo simples e breve uma forma de vida segundo o Evangelho. O papa a confirmou. Esse acontecimento é situado normalmente por volta de 1209–1210 e associado a uma aprovação oral de Inocêncio III.

O texto breve original não sobreviveu. Alguns versículos evangélicos e partes das regras posteriores podem guardar seu coração, mas não é possível reconstruí-lo palavra por palavra com certeza.

Ao longo dos anos, a fraternidade cresceu. Decisões tomadas nos capítulos anuais e ensinamentos de Francisco foram sendo reunidos. Em 1221, no grande capítulo de Pentecostes junto à Porciúncula, o processo chegou à forma longa que conhecemos como Regra não Bulada.

Isso explica por que a autoria deve ser apresentada com cuidado. Francisco está no centro do texto, e sua voz aparece com força. Mas não se trata necessariamente de uma obra individual composta do começo ao fim por ele sozinho. Os ministros gerais da família franciscana a descrevem como texto nascido em diálogo com os frades e com a vida.

Uma regra que ainda respira conversa

Ao ler, percebemos mudanças de tom. Alguns capítulos parecem instruções: como receber novos irmãos, como vestir-se, como escolher ministros. Outros juntam trechos bíblicos. O capítulo 23 transforma-se numa grande oração de louvor e agradecimento. O último pede que os irmãos aprendam e recordem o sentido da vida escrita.

Essa variedade não é defeito. Permite enxergar a oficina antes de as paredes serem alisadas.

No capítulo 5, os ministros devem visitar e advertir os irmãos com humildade. Os demais devem obedecer no que se refere à salvação e não contradiz a vida professada. Então aparece uma frase surpreendente: pela caridade do Espírito, sirvam e obedeçam voluntariamente uns aos outros.

A obediência não desce apenas do chefe. Corre entre irmãos como água repartida.

Em seguida, o texto proíbe que alguém seja chamado “prior”. Todos devem ser chamados irmãos menores. A palavra “menor” não diz que uma pessoa vale menos. Diz que ela escolhe não ocupar o primeiro lugar.

O dinheiro que não podia entrar

A Regra proíbe severamente receber moedas ou dinheiro, diretamente ou por intermediário. No mundo medieval, isso era radical. Moedas serviam para comprar alimento, pagar transporte, alugar espaço e resolver emergências.

O texto tenta impedir que a fraternidade construa sua segurança sobre reservas financeiras. Para necessidades de doentes e roupa, amigos espirituais poderiam prestar ajuda, mas os irmãos não deveriam receber dinheiro.

Não convém imaginar uma aplicação simples e idêntica em todas as regiões. Quanto mais a Ordem se espalhava, mais difíceis se tornavam viagem, estudo e cuidado. As discussões posteriores sobre intermediários, uso de bens e propriedade nasceriam justamente dessa tensão.

A Regra não é um retrato de pobreza romântica. Ela deixa sentir o risco real de depender de outros. E pede que os irmãos trabalhem, sem apagar o espírito de oração e devoção.

Sentar-se com quem o mundo evita

O capítulo 9 ordena que os irmãos se alegrem quando convivem com pessoas consideradas sem valor e desprezadas: pobres, fracas, enfermas, atingidas pela lepra e mendigos à margem do caminho.

Essas palavras se ligam ao começo do Testamento. Francisco não quer que sua experiência de misericórdia se torne lembrança particular de um santo. Deseja que a fraternidade continue escolhendo companhia onde a sociedade escolhia distância.

Hoje não devemos repetir rótulos medievais como se a pessoa fosse sua doença. Podemos, porém, ouvir a pergunta: com quem ninguém quer sentar-se? A Regra empurra os irmãos para esse lugar.

Ela também manda que não julguem quem usa roupas bonitas ou come alimentos delicados. A pobreza não deve virar nova forma de superioridade. Um hábito remendado pode esconder orgulho tão grande quanto uma roupa luxuosa.

Quando um irmão adoece

Se um irmão cai doente, os outros devem servi-lo como gostariam de ser servidos. A frase é curta e derruba qualquer espiritualidade que admire sofrimento de longe.

Um grupo pobre ainda precisa cuidar. Alguém busca água, prepara alimento e permanece acordado. A Regra não fornece um manual médico. Estabelece uma medida: imagine-se no lugar do enfermo.

Também pede que ninguém se irrite ou perturbe por causa do pecado de outro. Ira e perturbação podem impedir o amor. Isso não elimina correção. Impede que a pessoa que corrige transforme o erro alheio em combustível para a própria vaidade.

Esse cuidado aparece em outros escritos, sobretudo na Carta a um Ministro. A repetição sugere uma preocupação central de Francisco, não uma frase decorativa.

Dois modos de ir entre outros povos

O capítulo 16 trata dos irmãos que desejavam ir “entre sarracenos e outros infiéis”, linguagem cristã medieval para muçulmanos e outros não cristãos. O vocabulário pertence à época e não precisa ser repetido hoje como insulto.

O texto propõe dois modos de presença. Primeiro, não entrar em disputas, permanecer sujeito a toda criatura humana por amor de Deus e confessar ser cristão. Segundo, quando percebessem que agradava ao Senhor, anunciar a fé.

A ordem dos modos é importante: antes de falar, viver sem briga e sem domínio. A Regra foi concluída depois da viagem de Francisco ao Egito, em 1219. É possível que a experiência entre cristãos e muçulmanos tenha influenciado esse capítulo, mas não temos uma anotação de Francisco dizendo exatamente como cada frase nasceu. A ligação histórica é plausível; os detalhes são reconstrução.

O Evangelho costurado no pergaminho

Poucos escritos de Francisco acumulam tantas citações bíblicas. Os capítulos sobre missão reúnem palavras de Jesus enviando discípulos. Outros trechos recorrem às cartas apostólicas. O texto não usa a Bíblia apenas para decorar uma decisão já pronta; monta decisões com palavras bíblicas.

Isso também explica algumas repetições. O leitor moderno talvez quisesse cortar frases. Para os irmãos, repetir o Evangelho era permanecer sob uma voz maior que a deles.

No capítulo 22, uma longa montagem de passagens adverte sobre o coração endurecido. No capítulo 23, a linguagem legislativa cede lugar ao louvor: Deus é o bem pleno, todo bem, o verdadeiro e sumo bem. A fraternidade que discutia roupa, dinheiro e viagens termina ajoelhada.

Uma regra feita apenas de proibições produziria medo. Francisco deseja que o centro seja o desejo de Deus.

Por que não recebeu a bula?

Dizer que a Regra não Bulada foi “rejeitada” pelo papa é simplificar demais. Não possuímos um documento de rejeição em 1221. Sabemos apenas que ela não recebeu a aprovação papal com selo que seria dada ao texto de 1223.

Por ser longa, cheia de citações bíblicas e escrita também para aconselhar, ela podia ser difícil de usar como lei comum de uma Ordem espalhada por vários países. Nos dois anos seguintes, outro texto mais curto e organizado foi preparado. O cardeal Hugolino, futuro Gregório IX, costuma ser ligado a esse trabalho, mas não sabemos exatamente quanto ele ajudou.

A Regra de 1223 não apagou a de 1221. Tornou-se a norma professada, enquanto a anterior permaneceu como testemunho precioso da formação do carisma.

É como comparar o caderno de uma longa caminhada com o mapa finalmente entregue aos viajantes. O mapa é mais claro. O caderno guarda chuvas, encontros e perguntas que explicam por que o caminho tomou aquela direção.

As cópias que ficaram

O original de 1221 desapareceu. A Regra chegou por manuscritos e antigas compilações. Estudos modernos comparam esses testemunhos e também pequenos fragmentos de formas anteriores preservados em outras obras.

Há variantes em algumas passagens, especialmente onde textos foram copiados ou incorporados de maneiras diferentes. Isso não transforma a obra numa invenção tardia. Mostra o trabalho normal — e às vezes complicado — da transmissão medieval.

Quando uma edição apresenta capítulos e números bem ordenados, devemos agradecer aos copistas e editores, mas lembrar que Francisco não segurou nosso livro impresso. Ele viveu num mundo de folhas caras, leitura em voz alta e memória comunitária.

A imagem de irmãos reunidos à noite em torno de uma lamparina representa essa natureza comunitária. Não afirma que uma reunião exata aconteceu com aquelas seis pessoas ou naquele abrigo.

O texto antes do selo

A Regra não Bulada é longa porque a vida havia ficado grande. Precisava falar de ministros, trabalho, doença, missão, alimento, pregação e capítulos. Ainda assim, sua pergunta cabe numa frase: como seguir as pegadas de Jesus sem transformar a fraternidade em posse?

O documento não oferece uma Idade Média perfeita. Mostra conflitos, necessidade de correção e medo de dinheiro. Justamente por isso está vivo. Regras são necessárias quando pessoas reais discordam, adoecem e se cansam.

No fim, Francisco não manda os irmãos admirarem o texto. Pede que aprendam seu teor e sentido para a salvação da alma e o ponham em prática com simplicidade.

O selo ainda não chegou. A tinta ainda carrega poeira de estrada. E talvez seja por isso que, oito séculos depois, podemos quase ouvir os irmãos respirando entre uma frase e outra.

Folhas antes do selo

Fontes deste manuscrito

  1. “To Live and Follow” — Ministros gerais da Família FranciscanaLeitura oficial franciscana. Explica a composição comunitária, o ano de 1221 e os temas centrais da Regra.
  2. Regra não Bulada — Capuchinhos do Rio Grande do SulTexto em português. Introduz a obra e conduz aos capítulos para consulta.
  3. Blastic, Hammond e Hellmann — The Writings of Francis of AssisiEstudo textual. Trata da formação, manuscritos, fragmentos, autoria e gênero da Regra.
  4. Acta Ordinis Fratrum Minorum, 2020Documento da Ordem. Publica o material do oitavo centenário e sua leitura histórica e espiritual.
  5. Jacques Dalarun — “Lesser Brothers I: Writings by and about Francis”Estudo acadêmico. Situa a Regra no desenvolvimento da fraternidade e de seu governo.
  6. Felipe Augusto Ribeiro — A construção da norma no movimento franciscano, USPPesquisa em português. Analisa a passagem entre as formas de vida, as duas Regras e o Testamento.

Como lemos este capítulo: a Regra de 1221 é autêntica e ligada decisivamente a Francisco, mas resulta de um processo comunitário e não de uma única noite de escrita. A forma breve de 1209–1210 e o original de 1221 se perderam. Não há prova de uma rejeição papal formal; afirmamos apenas que o texto não recebeu bula. A reunião noturna da arte é uma síntese contemplativa desse processo.