O campo ainda guarda a umidade da manhã.
Francisco caminha com outros irmãos por uma estrada da Úmbria. Há barro nas sandálias e vozes humanas esperando em alguma cidade adiante. Então ele vê pássaros reunidos junto ao caminho.
Sai da estrada e vai até eles.
Não bate palmas para fazê-los voar. Não tenta capturá-los. Fala.
As aves permanecem.
Essa cena parece ter sido pintada pela própria memória: um homem pobre curvado diante de criaturas pequenas, enquanto o mundo inteiro fica em silêncio. Mas o que chegou até nós não é uma lembrança sem moldura. É um relato escrito por Tomás de Celano, depois ampliado por outros autores e transformado em arte.
O sermão aos pássaros não está na mesma situação do lobo de Gúbio. O lobo surge por escrito mais de um século depois de Francisco. Os pássaros aparecem poucos anos após sua morte. Ainda assim, proximidade não é o mesmo que uma gravação.
O que sabemos
Francisco morreu em 1226. Por volta de 1228 ou 1229, Tomás de Celano concluiu a primeira grande biografia do novo santo. Ele era franciscano e escreveu numa Ordem que ainda conservava companheiros e testemunhas dos primeiros anos.
Celano conta que Francisco atravessava o vale de Espoleto. Perto de Bevagna, viu uma grande quantidade de aves de diferentes tipos, entre elas pombas, gralhas e aves parecidas com corvos. Correu alegremente até elas, deixando os companheiros na estrada.
Primeiro, cumprimentou os pássaros. Surpreendeu-se porque não fugiram. Pediu que escutassem a palavra de Deus e explicou que deviam louvar o Criador: haviam recebido penas, asas e o ar para voar. Deus cuidava delas sem que plantassem ou colhessem.
Segundo Celano, as aves esticaram o pescoço, abriram os bicos, estenderam as asas e olharam para Francisco. Ele passou entre elas, tocando-as de leve com a barra do hábito. Nenhuma partiu até que ele as abençoasse e permitisse que voassem.
Depois, Francisco se censurou por não ter pregado antes às criaturas. A partir daquele dia, diz o biógrafo, exortava aves, animais e até seres sem voz a amar e louvar o Criador.
Esse é o núcleo mais antigo conhecido: caminho, aves, palavra, atenção e despedida.
Também possuímos escritos do próprio Francisco que combinam com a cena. No Cântico das Criaturas, ele chama sol, vento, água, fogo e terra de irmãos e irmãs. Não escreveu o sermão aos pássaros, mas deixou uma linguagem em que as criaturas não são apenas objetos úteis. Participam do louvor.
De onde vem o primeiro relato
A Vida Primeira de Celano é uma fonte próxima. Foi escrita apenas dois ou três anos depois da morte de Francisco, muito antes das Florinhas. Isso lhe dá um peso histórico que o relato do lobo não possui.
Mas Celano não era um repórter escondido atrás de uma árvore. Sua obra celebrava um santo recém-canonizado e ensinava aos leitores como compreender sua vida. Ele escolheu cenas, organizou-as e escreveu em linguagem bíblica.
Quando menciona aves que não semeiam nem colhem, o leitor medieval podia recordar as palavras de Jesus no Evangelho de Mateus. Quando as criaturas são chamadas a louvar, podia ouvir o Salmo 148, que convida aves e todos os seres da terra a glorificar Deus.
Essas lembranças bíblicas eram parte do modo medieval de escutar. Muita gente não possuía livros, e poucos conseguiam ler. As Escrituras chegavam pela liturgia, pelos sermões, pelos vitrais e pelas histórias repetidas. Assim, quando Celano descreveu o campo, seus leitores não separaram a cena da Bíblia como separaríamos dois livros numa estante. O voo das aves e as palavras de Jesus pareciam pertencer ao mesmo céu.
Também é importante perceber o tamanho do gesto de Francisco. Um sermão costumava acontecer onde pessoas pudessem ouvi-lo: numa igreja, numa praça ou junto de uma multidão. Sair do caminho para falar a animais muda a ideia de público. Na narrativa de Celano, as criaturas não são enfeites ao redor do pregador; tornam-se ouvintes. Francisco, por sua vez, não aparece como senhor delas. Aproxima-se com alegria, pede atenção e depois permite que partam.
Essa forma literária ensina sem precisar apresentar uma discussão abstrata. Um leitor de 1229 podia compreender, numa única imagem, que a pregação não deveria buscar somente aplauso e que o louvor de Deus ultrapassava a voz humana. O relato é, ao mesmo tempo, memória de um gesto e pequena aula de teologia contada com asas.
Isso não significa que Celano tenha inventado tudo. Significa que recebeu ou conheceu uma memória e a contou de modo teológico. Não temos o nome da pessoa que lhe transmitiu o episódio. Não sabemos se ele entrevistou um companheiro presente. Não conservamos anotações anteriores.
Até o discurso precisa de cuidado. Celano oferece um resumo construído, não uma transcrição palavra por palavra. A cena pode estar próxima do acontecimento, mas as frases chegaram pela pena de um autor.
O que mudou com o tempo
Outros biógrafos retomaram a história. Boaventura, na Legenda Maior, aprovada em 1263, preservou o encontro e o tornou parte da imagem oficial de Francisco. As aves nos galhos curvam a cabeça; as que estão no chão esperam. O santo passa entre elas como alguém que reconhece uma família.
No fim do século XIII, o grande ciclo de afrescos da Basílica Superior de Assis deu corpo à cena. Na pintura tradicionalmente ligada a Giotto e sua oficina, Francisco se inclina, um frade observa e as aves formam uma pequena assembleia no chão. A imagem ajudou gerações a “lembrar” algo que nunca viram.
Arte não é documento ocular. O pintor escolheu árvores, gestos, cores e número de pássaros. Mas a pintura mostra que, poucas décadas depois de Celano, o sermão já era parte central da memória pública do santo.
Mais tarde, os Atos do Bem-aventurado Francisco e as Florinhas deram novos detalhes. As Florinhas, traduzidas e organizadas no fim do século XIV, nomeiam companheiros, descrevem uma passagem por Cannara e apresentam o encontro entre Cannara e Bevagna. O sermão fica maior: fala das roupas de penas, do ar, das fontes, das árvores e da preservação das aves na arca de Noé.
Esses acréscimos são belos. Também são tardios. Não devemos colocar todos na boca histórica de Francisco com a mesma segurança do núcleo contado por Celano.
O lugar exato também se tornou uma pergunta. Celano diz “perto de Bevagna”. A tradição posterior conduz o caminho entre Cannara e Bevagna. Piandarca, um campo nessa região, passou a ser venerado como o local do sermão. Há uma pedra de memória e uma pequena construção devocional muito mais recente.
É possível que a tradição tenha conservado o lugar. É possível que tenha procurado no terreno um endereço para uma história já amada. Nenhum mapa do século XIII marca: “aqui Francisco falou às aves”.
O que a cena quer ensinar
Francisco não fala aos pássaros porque os imagina como crianças fantasiadas. Ele fala porque o mundo inteiro, para ele, aponta para o Criador.
As aves não fabricaram suas asas. O frade também não fabricou a própria vida. Tudo é recebido. Por isso, o sermão é antes de tudo uma lição de gratidão.
Há também uma lição de humildade. Pregadores costumavam procurar pessoas importantes, igrejas cheias ou praças movimentadas. Francisco interrompe a viagem por criaturas que não podem aplaudir, pagar ou dar prestígio. Ele se curva. O público está abaixo de seus joelhos.
Isso não quer dizer que Francisco entendia ecologia como entendemos hoje. Ele vivia num mundo medieval, onde animais também serviam de símbolos religiosos e de alimento. Transformá-lo num ambientalista moderno seria arrancá-lo de seu tempo.
Mesmo assim, sua visão oferece algo poderoso para o presente. Se uma ave possui valor porque é criatura — e não apenas porque nos serve —, então o mundo não é um depósito montado para desejos humanos. Cuidar da criação começa por aprender a olhar.
O silêncio das aves também pode ser linguagem do narrador. Celano descreve seus pescoços, asas e bicos como respostas. Não precisa fazê-las falar em palavras humanas. O corpo do animal basta.
O que permanece mistério
Não sabemos o dia. Não sabemos exatamente onde. Não sabemos quantas aves havia nem quais companheiros estavam presentes. Não sabemos quais palavras Francisco pronunciou.
Sabemos que um franciscano escreveu a cena quando a memória de Francisco ainda era jovem. Isso torna o relato historicamente importante. Não o torna uma prova completa de cada movimento descrito.
As aves podem ter permanecido porque estavam alimentando-se, porque se sentiam seguras ou porque o comportamento delas foi embelezado pela narrativa. Podem ter sido poucas. Podem ter sido muitas. O acontecimento pode ter sido simples: Francisco falou com alegria a criaturas que não fugiram. Na recordação, essa simplicidade ganhou a forma de um sermão de toda a criação.
Talvez seja por isso que a história não envelhece.
No campo úmido, o companheiro observa de longe. Francisco não está acima de um púlpito. Está de perfil, quase à altura dos pássaros. Nenhum raio desce do céu. Nenhuma ave recebe uma auréola. Só existem voz, penas, terra e atenção.
Depois da bênção, elas voam em direções diferentes. A história não diz que se tornaram animais domesticados nem que seguiram Francisco. Continuaram sendo aves.
E o pregador voltou à estrada talvez um pouco menor do que antes — porque, por alguns instantes, aceitou não ser a única criatura capaz de louvar.
Penas no pergaminho
Fontes desta história
- Tomás de Celano, Vida Primeira, capítulo 21 — CapuchinhosTradução portuguesa do relato mais antigo conhecido, escrito por volta de 1228–1229.
- Francisco, Cântico das Criaturas — Ordem dos Frades MenoresTexto de Francisco que ilumina sua linguagem de fraternidade e louvor com a criação.
- Florinhas de São Francisco, capítulo 16 — University of ChicagoVersão tardia e ampliada, com o percurso entre Cannara e Bevagna e um sermão mais desenvolvido.
- “Francesco d’Assisi” — Dizionario Biografico TreccaniSíntese crítica sobre Celano, Boaventura, os Actus, as Florinhas e a formação da memória.
- “A portrait of central Italy’s geology through Giotto’s paintings” — Copernicus PublicationsEstudo acadêmico que situa e analisa o afresco do sermão na Basílica de Assis.
- Fontes literárias de PiandarcaComparação entre Celano, Boaventura, Actus, Florinhas e a tradição local do campo.
Como lemos as fontes: Celano é próximo da primeira geração e tem mais peso que as versões tardias, mas escreveu uma vida de santo com linguagem bíblica, não uma transcrição. Lugares, falas extensas e detalhes acrescentados por autores e artistas posteriores foram identificados como desenvolvimento da tradição.

