Antes do amanhecer, um sino podia chamar os irmãos. O chão era frio. A luz, pequena. Eles abriam o saltério e davam voz às palavras que Israel rezava havia séculos: medo, confiança, perseguição, louvor, sede de Deus.
Francisco viveu dentro desse ritmo. Como diácono e fundador de uma fraternidade religiosa, rezava as horas da Igreja. Mas em algum momento — não sabemos a data ou a mesa — começou a reunir versos bíblicos de uma maneira própria. Escolheu uma linha de um salmo, aproximou-a de outra, acrescentou ecos da liturgia e formou quinze novas composições.
O conjunto é conhecido como Ofício da Paixão do Senhor. O nome pode enganar quem imagina uma encenação detalhada da Via-Sacra. Não há quatorze estações, nem uma narrativa que acompanha cada queda. Francisco entra na oração de Cristo usando palavras da Bíblia.
É como construir uma pequena capela com pedras retiradas de edifícios antigos. As pedras continuam sendo bíblicas; a nova disposição revela outra passagem de luz.
O que era um ofício
Na Idade Média, “ofício” não significava emprego. Era uma ordem de oração distribuída pelas horas do dia e da noite. Matinas ou vigílias, laudes, prima, terça, sexta, noa, vésperas e completas marcavam o tempo. Os nomes e costumes variaram ao longo dos séculos, mas a ideia central era simples: o dia pertence a Deus.
Os frades não inventaram essa prática. Herdaram-na da Igreja. A Regra de 1223 manda que os clérigos rezem o ofício segundo a ordem da Igreja Romana, enquanto os irmãos leigos rezariam um número determinado de Pai-Nossos.
O Ofício da Paixão é uma devoção ligada a esse mundo litúrgico. Não devemos apresentá-lo como substituto universal do ofício oficial. Ele funciona como uma oração particular organizada para acompanhar horas e tempos. As rubricas preservadas — pequenas instruções sobre quando rezar cada parte — mostram uma estrutura cuidadosa.
Francisco adapta os salmos a diferentes períodos: o ciclo da Paixão e da Páscoa, o tempo ao longo do ano e o período do Advento ao Natal e à Epifania. Os estudiosos discutem a história exata dessa organização. É possível que o conjunto tenha crescido em etapas.
Quinze vozes compostas de muitas vozes
Chamamos as peças de quinze “salmos”, colocando a palavra entre aspas para não confundi-las com os 150 salmos bíblicos. Cada uma é um mosaico.
Francisco podia conhecer muitos trechos de memória. A oração repetida grava frases no corpo: a boca sabe o caminho antes mesmo de os olhos encontrarem a linha. Isso ajuda a entender como versos distantes puderam se aproximar.
Ele não escolheu apenas textos que mencionam sofrimento. Reuniu abandono e certeza, humilhação e glória, morte e vida. Num dos movimentos, a voz passa do pó da morte para a confiança de que o Pai recebe o Filho. Em outro, o chamado para cantar um cântico novo anuncia a vitória de Deus.
Essa alternância é essencial. O Ofício não termina preso na Sexta-Feira Santa. A Paixão é lida dentro do mistério pascal: Jesus sofre, morre e ressuscita. A cruz não é apagada; é atravessada.
Quem está falando?
Em alguns trechos, parece que o próprio Cristo reza ao Pai. Em outros, a comunidade contempla o que Deus fez. Há momentos em que a voz se amplia e convida terra, povos e criaturas ao louvor.
Não é sempre possível colocar uma etiqueta perfeita em cada verso. A Bíblia já permite mudanças de voz; a colagem de Francisco intensifica isso. O orante pode começar ouvindo Jesus e terminar descobrindo-se dentro da Igreja que responde.
O estudioso Leonard Lehmann mostrou como o texto revela a espiritualidade cristológica de Francisco: o Filho vive voltado para o Pai, na ação do Espírito, e conduz a criação ao louvor. A Paixão não é somente dor física. É relação, obediência amorosa e confiança.
Para um leitor de doze anos, podemos comparar com uma carta feita de frases conhecidas. Imagine selecionar versos que alguém amado já disse e organizá-los de tal modo que expressem uma conversa nova. As palavras mantêm sua origem, mas a escolha conta algo sobre quem as reuniu.
Não assistir de longe
Rezar por dentro da confiança de Jesus
Francisco não transforma a Paixão num espetáculo. Ele procura a oração do Filho no meio da dor. Quem reza o Ofício não fica apenas observando: aprende a dizer, com Cristo, que o Pai continua presente até quando a noite parece fechada.
Maria no começo da oração
O conjunto é acompanhado por uma antífona dedicada à Virgem Maria. Uma antífona é um pequeno texto rezado antes ou depois de um salmo. Aqui, Francisco saúda Maria como filha e serva do Pai, mãe de Jesus e esposa do Espírito Santo, cercada pelos santos.
A linguagem é densa. Maria aparece inteiramente dentro da relação com Deus Trindade. A oração não a trata como figura isolada nem como deusa. Ela é criatura escolhida, habitada pela graça e inserida na história de Cristo.
Essa antífona ajuda a compreender por que o Ofício da “Paixão” inclui encarnação, nascimento e glória. Para Francisco, o presépio e a cruz pertencem ao mesmo amor humilde. Aquele que se torna pequeno em Belém entrega-se na Paixão.
Há diferentes modos editoriais de apresentar a antífona e as rubricas. O leitor deve lembrar que um livro moderno organiza pontuação, títulos e referências que o manuscrito medieval não oferece da mesma forma.
O códice Assis 338
O manuscrito mais importante para muitos escritos de Francisco é o códice 338, conservado no fundo antigo da Biblioteca Comunal no Sacro Convento de Assis. Ele não é o caderno pessoal de Francisco. É um volume medieval que reúne cópias de vários textos.
Nele encontramos, entre outros, a Regra de 1223, o Testamento, as Admoestações, cartas, o Cântico e o Ofício da Paixão. Para o Ofício, edições críticas recorreram especialmente a esse testemunho.
“Cópia” não quer dizer falsidade. Antes da imprensa, copiar era o caminho normal para um texto sobreviver. O trabalho crítico compara manuscritos, identifica erros de copistas e procura aproximar-se da forma mais antiga alcançável.
O original material do Ofício escrito ou ditado por Francisco não chegou até nós. Sua autenticidade apoia-se na tradição textual e na coerência com seu vocabulário e sua espiritualidade, examinadas por gerações de estudiosos.
Francisco copiava cada verso de um livro?
Não sabemos como aconteceu a composição. Talvez tivesse um saltério diante de si em certos momentos; talvez recordasse trechos durante a oração e depois os fizesse registrar; talvez ambos. Não há testemunha descrevendo o processo completo.
É perigoso pintar uma cena e depois tratá-la como documento. A imagem deste capítulo mostra uma vigília possível, não o instante comprovado em que o Ofício nasceu.
Também não podemos afirmar que todos os quinze “salmos” foram montados na mesma semana. A complexidade dos ciclos e das rubricas levou estudiosos a considerar um desenvolvimento. A data geral permanece cautelosa: o texto costuma ser situado na maturidade espiritual de Francisco, sem calendário preciso.
Essa incerteza não enfraquece o escrito. Ela nos impede de inventar certeza onde o manuscrito não fala.
A Paixão vista com olhos pascais
Algumas devoções se concentram tanto no sofrimento que parecem esquecer a ressurreição. O Ofício de Francisco não faz isso. Mesmo quando a voz desce ao medo e à perseguição, sinais de confiança aparecem. Várias composições se relacionam diretamente com vida nova, ascensão, louvor e vinda do Senhor.
Num breve eco em tradução própria, uma das peças canta: “Entoai ao Senhor um canto novo, porque realizou maravilhas”. A frase vem da linguagem dos salmos, mas Francisco a coloca dentro de seu caminho pascal.
O Cristo do Ofício é o Filho pobre e obediente, mas não derrotado. Ele confia no Pai. Sua vitória não é a de um exército que humilha adversários; é a do amor que atravessa a morte.
Por isso o texto também pode acompanhar pessoas que sofrem. Não promete que a dor desaparecerá imediatamente. Oferece palavras antigas quando a própria pessoa já não encontra palavras. Ao emprestar a voz de Cristo, o orante descobre que sua noite não é solitária.
Rezar sem possuir as palavras
Francisco recebeu quase tudo o que usa. Os versos pertencem à Escritura e à liturgia. Sua criatividade não consiste em fingir que começou do zero. Ele escuta, seleciona e serve.
Há algo muito franciscano nisso. Assim como um frade menor não deseja possuir casas e riquezas, o escritor não precisa possuir cada palavra. Pode recebê-la, fazê-la passar pelo coração e devolvê-la como oração.
O Ofício também nos ensina a ler a Bíblia em relação. Um verso de lamento conversa com outro de esperança. Uma frase de sofrimento encontra outra de louvor. Nenhuma linha é obrigada a carregar sozinha todo o mistério cristão.
Ao final, ficamos diante de um trabalho silencioso. Quinze pequenas construções, feitas sem luxo, atravessaram códices e séculos. Quando a lamparina se apaga, as palavras continuam marcando as horas: noite, aurora, meio-dia, entardecer. Em cada uma, Francisco procura a mesma presença — Cristo que reza ao Pai e conduz seus irmãos da Paixão para a vida.
Salmos, códices e estudo
Fontes deste capítulo
- Porziuncola Project — St. Francis’ Office of the PassionTexto do Ofício. Apresenta as quinze composições, antífona e rubricas com base na tradição editorial do códice Assis 338.
- Dominic Monti, OFM — o Ofício e a RessurreiçãoSíntese franciscana especializada. Explica a colagem bíblica e a dimensão pascal do escrito.
- CFIT — Francisco marca a hora da morte de JesusMostra como uma composição é rezada no contexto da Sexta-Feira Santa sem separar cruz e confiança.
- Michael Blastic — estudo sobre o Ofício da Paixão, em The CordEstudo acadêmico franciscano. Analisa a seleção dos salmos e o caminho de sofrimento, morte e ressurreição.
- Analecta TOR — estudos sobre a cristologia do OfícioDiscute a estrutura das horas e a presença da Ressurreição em diversas composições.
- CapDox — cronologia dos escritosRegistra a cautela necessária: a data exata do Ofício não pode ser determinada.
- BeWeb — ficha bibliográfica do códice 338Testemunho manuscrito. Identifica o volume medieval conservado no fundo antigo de Assis.
Como ler este capítulo: a composição em quinze “salmos”, seus materiais bíblicos e a transmissão no códice 338 são documentados. A cena noturna é uma reconstrução visual possível. Não sabemos em qual eremitério, em que data ou por qual processo Francisco reuniu cada verso. Os breves ecos em português são tradução pastoral própria, não reprodução extensa de edição moderna.

