Uma voz do outro lado da cidade
Enquanto Francisco e os primeiros irmãos caminhavam pelas estradas, uma jovem os observava de dentro das muralhas de Assis.
Seu nome era Clara. Ela pertencia à família dos Offreducio, ligada à nobreza local. Cresceu em uma casa muito diferente das cabanas dos frades. Conhecia roupas finas, criados, regras sociais e os planos que uma família importante podia fazer para uma filha.
Naquele mundo, o casamento de uma jovem nobre não dizia respeito apenas ao amor. Podia unir famílias, propriedades e influência. Outras pessoas participavam da decisão sobre o seu futuro.
Mas Clara escutava outra voz.
As fontes antigas falam de sua atenção aos pobres desde cedo. Também contam que ela ouviu Francisco pregar em Assis. Talvez na igreja. Talvez em uma praça. Não sabemos o primeiro momento exato em que os caminhos dos dois se cruzaram.
Sabemos que a mensagem dele encontrou algo que já estava acordado dentro dela.
Não era apenas admiração
Clara não queria assistir de longe a uma vida corajosa. Queria responder com a própria vida.
Ela procurou Francisco em segredo, acompanhada por alguém de confiança. Conversaram sobre Jesus, pobreza e uma liberdade que não dependia de vestidos, alianças ou posição social. Francisco reconheceu seriedade naquela jovem. Clara reconheceu no caminho dos irmãos a forma de vida que desejava.
É importante não contar essa história como um romance escondido. A amizade entre Clara e Francisco foi profunda, mas nasceu da busca de Deus e de um projeto evangélico compartilhado. Eles se ajudariam por muitos anos sem que um se tornasse sombra do outro.
Clara não foi uma personagem secundária na história de Francisco. Ela se tornou fundadora, líder, escritora e guardiã de uma forma própria de viver a pobreza.
Naquele começo, porém, ainda era uma jovem diante de uma decisão imensa.
O Domingo de Ramos
A tradição situa sua partida na noite do Domingo de Ramos, em 1211 ou 1212. Na manhã daquele dia, Clara participou da celebração na catedral de São Rufino.
Uma biografia antiga conta que, enquanto outras pessoas caminhavam para receber os ramos, ela permaneceu em seu lugar. O bispo de Assis desceu e colocou o ramo em suas mãos.
Não sabemos o que Clara pensou naquele instante. Podemos apenas imaginar o peso daquele ramo.
Ele recordava a entrada de Jesus em Jerusalém, recebido como rei. Poucos dias depois, a multidão mudaria, os amigos fugiriam e Jesus seguiria o caminho da cruz.
O ramo falava de alegria e também de coragem. De acolhida e também de entrega.
Talvez Clara o tenha levado consigo quando a noite chegou. Algumas tradições o sugerem; outras não dizem. Nesta página, o ramo é também uma imagem para aquilo que ela guardava no coração: uma escolha que ainda não podia mostrar a todos.
A porta escondida
Quando a cidade adormeceu, Clara deixou a casa da família.
Fontes medievais falam de uma saída difícil, por uma porta que costumava permanecer bloqueada. Ao atravessá-la, ela não estava simplesmente mudando de endereço. Estava saindo de um futuro definido por sua posição social.
Uma companheira a acompanhou em parte do caminho. Os detalhes e os nomes variam entre as narrativas. O essencial permanece: Clara não fez aquela travessia diante de uma multidão. Fez no escuro.
Imagine Assis sem iluminação elétrica. O luar toca as pedras, mas deixa grandes áreas escondidas. As janelas estão fechadas. Cada ruído parece maior. A estrada desce da cidade até o vale.
Lá embaixo, perto da pequena capela da Porciúncula, Francisco e os irmãos a aguardavam com tochas.
Cada passo afastava Clara da segurança conhecida. Cada passo também a aproximava da liberdade que havia escolhido.
Coragem não é caminhar sem sentir o peso da noite. É continuar quando uma luz pequena já mostrou a direção.
Na pequena Porciúncula
A Porciúncula não era um palácio. Era uma capela modesta dedicada a Maria, cercada por campos. Ali os irmãos rezavam e se reuniam.
Clara chegou usando as roupas de sua posição. Durante uma cerimônia simples, trocou-as por uma veste pobre. Seus cabelos foram cortados como sinal de consagração.
Hoje, cortar o cabelo pode parecer um gesto comum. Naquele tempo, o cabelo, as joias e as roupas de uma jovem nobre faziam parte de sua identidade pública e de suas possibilidades de casamento. O gesto declarava que Clara pertencia agora a um caminho diferente.
Francisco não a manteve vivendo entre os frades. Primeiro, Clara foi conduzida a uma comunidade de mulheres beneditinas em São Paulo das Abadessas, onde teria proteção e poderia iniciar a vida religiosa.
Sua família tentou fazê-la voltar.
As fontes descrevem parentes indignados chegando ao mosteiro. Clara se agarrou ao altar e mostrou a cabeça cortada, afirmando a decisão que tomara. O relato usa uma imagem forte: aquela jovem não seria carregada de volta para uma vida que não escolhera.
A coragem de Inês
Pouco tempo depois, sua irmã Catarina, que receberia o nome religioso de Inês, juntou-se a ela. A reação da família foi ainda mais intensa. Uma tradição narra uma tentativa de retirar Inês à força.
Essas histórias foram escritas em linguagem de santidade e incluem elementos milagrosos. Ainda assim, revelam um conflito real. A escolha das irmãs contrariava interesses familiares e normas sociais muito poderosas.
Clara não atravessou a noite apenas para encontrar uma vida pronta. Precisou abrir um caminho onde quase não havia estrada.
Depois de passagens por outras casas religiosas, ela se estabeleceu em São Damião, a igreja que Francisco havia reparado. Ali nasceu a comunidade das Damas Pobres, mais tarde conhecida como Ordem de Santa Clara.
Outras mulheres chegaram. A pequena luz atravessada na noite tornou-se uma janela acesa para muitas vidas.
Clara não copiou Francisco
Francisco e Clara partilhavam o desejo de seguir Jesus pobre. Mas Clara precisou descobrir como esse chamado seria vivido por uma comunidade de mulheres estável, dedicada à oração e à fraternidade.
Os frades caminhavam entre cidades. As irmãs permaneciam em São Damião. Isso não tornava a vida delas menor. Sua missão possuía outro ritmo.
Clara cuidou de irmãs doentes, orientou a comunidade e escreveu cartas de grande beleza. Lutou durante anos para que a Igreja reconhecesse o Privilégio da Pobreza, isto é, o direito de sua comunidade não ser obrigada a possuir rendas e propriedades como forma de segurança.
Ela não defendia a pobreza porque a fome fosse bonita. Defendia uma confiança comunitária que, para ela, permitia seguir Cristo sem ser controlada por riquezas e alianças.
Perto do fim da vida, Clara escreveu uma Regra para as irmãs. Foi a primeira regra religiosa conhecida, escrita por uma mulher para uma comunidade de mulheres, a receber aprovação papal.
A jovem que saiu escondida tornou-se uma voz que a Igreja precisou escutar.
Uma amizade de espelho e luz
Clara comparava a contemplação de Cristo a olhar para um espelho. Não um espelho usado para admirar a própria aparência, mas para descobrir a beleza da humildade, da pobreza e do amor.
Sua espiritualidade nos convida a olhar, considerar, contemplar e transformar a vida segundo aquilo que vemos em Jesus.
Francisco também precisava de Clara. Quando enfrentava dúvidas e precisava discernir entre uma vida mais retirada ou a pregação pelas estradas, procurou o conselho dela e de outros irmãos. A tradição franciscana guardou a amizade dos dois como uma conversa entre vocações inteiras.
Eles não eram duas metades incompletas. Eram duas pessoas livres ajudando uma à outra a permanecer fiel.
A noite não desapareceu
Costumamos contar escolhas corajosas olhando para o resultado. Sabemos que Clara se tornou santa. Conhecemos as igrejas, pinturas e comunidades que levam seu nome. Assim, sua partida pode parecer inevitável.
Para ela, não era.
Ao atravessar a porta, Clara não possuía a história do futuro. Tinha um chamado, alguns amigos esperando no vale e luz suficiente para o próximo trecho.
A coragem raramente vem acompanhada de garantia. Às vezes ela se parece com uma mão segurando um ramo enquanto os pés procuram a próxima pedra no escuro.
O que a travessia de Clara nos ensina
Existem decisões que ninguém pode tomar em nosso lugar.
Isso não significa ignorar todo conselho ou agir sem cuidado. Clara conversou, discerniu e buscou apoio. Mas, quando chegou o momento, precisou oferecer a própria resposta.
Também aprendemos que seguir uma inspiração não é copiar outra pessoa. Clara viu uma luz em Francisco e a recebeu de modo inteiramente seu. Fez nascer uma comunidade que possuía voz, forma e beleza próprias.
Talvez você ainda não enxergue a estrada inteira. Pergunte apenas: qual é o próximo passo verdadeiro que a luz já me permite dar?
A travessia sob a lua
Abra um caminho na noite.
Clara não esperou o dia revelar todas as respostas. Caminhou com a luz que possuía e fez da própria escolha uma lâmpada para outras mulheres.
A cidade dorme. Uma faixa de luar espera junto à porta.
Para quem deseja ir mais fundo
Fontes deste capítulo
- Carta de Bento XVI para o Ano ClarianoContextualiza o encontro com Francisco, a noite do Domingo de Ramos e a vocação de Clara.
- Lent with the Saints: ClareNarra a caminhada de Assis até a Porciúncula e sua entrega a uma vida evangélica.
- Saint Clare of AssisiVisão geral da vida de Clara, de sua consagração e de sua comunidade em São Damião.
A cronologia inicial de Clara varia: muitas obras indicam 1212; outras, 1211. Detalhes como a porta, o ramo levado durante a fuga e as reações exatas vêm de tradições biográficas e são apresentados com cautela.
Nota histórica: Clara nasceu por volta de 1193 ou 1194 e morreu em 1253. Sua Regra foi aprovada pelo papa Inocêncio IV pouco antes de sua morte. Esta narrativa evita reduzir sua vocação à influência de Francisco: os próprios escritos de Clara testemunham sua voz e seu discernimento.

