O jovem Giovanni entre os tecidos da loja de seu pai, contemplando Assis e uma estrada distante ao entardecer
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A vida de São Francisco · Capítulo I

Um menino chamado Giovanni

Antes de ser Francisco, ele foi o filho inquieto de uma família de comerciantes em uma pequena cidade chamada Assis.

Uma cidade cercada por muros

Imagine uma cidade construída no alto de uma colina. As casas são de pedra clara. Ruas estreitas sobem e descem entre oficinas, pequenas igrejas e praças cheias de vozes. Quando alguém se aproxima dos muros, consegue ver campos, oliveiras e montanhas ao longe.

Essa cidade é Assis, na região italiana da Úmbria. Foi ali, por volta de 1181 ou 1182, que nasceu o menino que o mundo conheceria como São Francisco.

Naquele tempo, não havia eletricidade, carros ou telefones. Notícias viajavam devagar. A maior parte das pessoas trabalhava na terra ou em oficinas. A sociedade era muito desigual: algumas famílias tinham casas confortáveis e muitos negócios; outras mal possuíam alimento para o dia seguinte.

Francisco nasceu do lado confortável dessa cidade.

Giovanni ou Francesco?

Sua mãe o chamou de Giovanni, a forma italiana de João. Seu pai, Pietro di Bernardone, era comerciante de tecidos. Ele viajava especialmente para a França, comprava peças valiosas e voltava a Assis para vendê-las.

Quando Pietro retornou de uma viagem e encontrou o filho recém-nascido, começou a chamá-lo de Francesco, algo como “o francesinho”. O apelido permaneceu. Giovanni quase desapareceu, e Francesco virou o nome que atravessaria os séculos.

Não sabemos todos os detalhes de sua infância. Nenhuma pessoa estava anotando cada brincadeira ou conversa do menino. Os primeiros relatos foram escritos quando ele já era conhecido. Por isso, é importante separar aquilo que os documentos realmente dizem das cenas que a imaginação acrescentou mais tarde.

O que sabemos é que sua família tinha dinheiro e esperava que ele participasse dos negócios.

Antes de vestir um hábito simples, Francisco conheceu tecidos caros. Antes de escolher a pobreza, ele soube como era viver com conforto.

A loja do pai

É provável que Francisco tenha aprendido a reconhecer tecidos, conversar com compradores e fazer contas. Uma loja medieval não era silenciosa. Pessoas entravam, discutiam preços, tocavam os panos e traziam notícias de outras cidades.

Francisco cresceu ouvindo histórias de lugares distantes. Aprendeu algumas palavras em francês e gostava das canções dos trovadores — poetas que cantavam sobre coragem, amor e grandes aventuras.

Ele não parecia sonhar em passar a vida atrás de um balcão. Queria algo maior. Queria ser visto, admirado e lembrado.

Esse desejo não o torna uma pessoa ruim. Quase todo jovem quer descobrir seu lugar no mundo. O problema começa quando acreditamos que só seremos importantes se todos estiverem olhando para nós.

O rei das festas

Os antigos relatos descrevem Francisco como alegre, generoso e apaixonado por festas. Ele gostava de reunir amigos e, muitas vezes, pagava as despesas do grupo. Vestia-se bem e queria ocupar o centro da atenção.

Talvez alguém que o encontrasse naquela época dissesse:

— Aquele rapaz vai ser um comerciante rico ou um grande cavaleiro.

Ninguém diria:

— Aquele rapaz vai abandonar tudo, cuidar de doentes e chamar o sol de irmão.

Mas a transformação de Francisco não apagaria completamente o jovem que ele havia sido. Sua alegria continuaria. O amor pela música se tornaria oração. A generosidade das festas se transformaria em cuidado pelos pobres. Até o desejo de viver uma aventura encontraria um novo caminho.

Deus não jogou fora a personalidade de Francisco. Ajudou-o a descobrir para que seus dons serviam.

Dois mundos dentro de Assis

Enquanto Francisco celebrava com os amigos, a cidade atravessava conflitos. Os nobres, donos de terras e castelos, disputavam poder com os comerciantes que estavam enriquecendo. Assis também lutava contra cidades vizinhas, principalmente Perúsia.

Francisco cresceu entre dois mundos. De um lado estavam riqueza, festas e sonhos de cavalaria. Do outro, trabalhadores pobres, mendigos, pessoas doentes e guerras que podiam começar de repente.

Ele era generoso, mas ainda mantinha distância de algumas pessoas. Os doentes que mais assustavam a sociedade eram levados para fora dos muros. A lepra podia deformar o corpo, e o medo fazia com que os doentes fossem tratados como se tivessem deixado de ser humanos.

O jovem Francisco ainda não estava preparado para se aproximar deles.

Um dia, isso mudaria tudo.

O que este começo nos ensina

Às vezes imaginamos que um santo já nasce sabendo exatamente o que fazer. A vida de Francisco mostra o contrário. Ele teve dúvidas, vaidade, medo e sonhos que não deram certo.

Sua história começa com uma procura.

Talvez por isso continue tão próxima de nós. Não precisamos ter todas as respostas para dar o primeiro passo. Precisamos apenas prestar atenção quando a vida começa a fazer perguntas novas.

Para guardar no coração

Seu dom pode se tornar presente.

Aquilo que você ama fazer não precisa terminar em você. Sua alegria, sua imaginação e até o seu jeito de escutar podem iluminar a vida de alguém.

“Como aquilo que existe em mim pode ajudar alguém?”

Guarde esta pergunta. Ela também acompanhou Giovanni, mesmo antes que ele soubesse aonde seu caminho o levaria.

Um gesto para hoje

Escolha um dom.
Entregue-o.

Toque na qualidade que você quer oferecer a alguém hoje.

Escolha uma palavra para começar.


Nota histórica: as principais informações sobre a juventude de Francisco aparecem em biografias medievais, como as de Tomás de Celano, e em seu próprio Testamento. Datas muito antigas podem variar entre os estudiosos. Quando uma cena não é comprovada, este portal a apresenta como tradição ou possibilidade, não como certeza.